Origem do Maine Coon x Menino Tom I

Um garoto marinheiro chamado Tom Coon, de quem supostamente o gato tenha recebido o nome “coon”, trabalhava a bordo do veleiro de pesca Glen Laurie. Um de seus trabalhos quando o navio estava atracado, era capturar e colecionar gatos, que eram utilizados para livrar o navio dos ratos do cais. Em uma destas expedições de “captura-de-gatos”, Tom encontrou uma linda gata de pêlo longo.

O porto seguro para ambos, a primeira coon e sua subseqüente ninhada foi a fazenda Tarbox em Biddeford Pool, no Maine, onde o Glen Laurie ancorou para pegar suprimentos no armazém Cutts. Quando o garoto Tom se tornou um capitão, ele continuou a levar gatos de pêlo longo para a fazenda durante suas viagens pelo oceano.

 

Tradução: Ângela Stoicov - Amacoon, 2007
Fonte: Arquivo Web

Link: Dirigo

 

Origem do Maine Coon x Menino Tom II
(por Lida E. Choate da Fazenda Tarbox)

Lida E. Choate

Papai me dizia, “Então você gosta de Coonies e de filhotes? Eu também. Você sabe como o primeiro Coon e seus filhotes apareceram em nosso celeiro?”. Claro que eu disse, “Não, mas eu gostaria de saber”.

Nosso celeiro foi a casa de muitos Maine Coons adultos e filhotes. Uma fêmea em especial e seus filhotes eram conhecidos como “Gatos da Fortuna” ou “Gatos da Sorte”. Ela tinha grandes marcações alaranjadas e pretas nas costas, e branca na parte de baixo. Seu rosto era metade laranja escuro e outra metade preta, como uma chama. Seu nariz era de um rosa delicioso, e abaixo do queixo e das patas era branquíssimo. Seus olhos refletiam a expressão “sei de tudo”. Eram como profundas piscinas de cor âmbar.

Muitas vezes eu observava meu pai ordenhar vacas sentado no tamborete de leite e ficava paralisada olhando o leite bater no fundo do balde com a força de uma bala. A cada ordenhada, sua cabeça era pressionada contra o flanco da vaca, quase como um carinho. Sentado diretamente a sua direita e atrás da vaca vinha uma fila de “gatos da sorte”, a mãe com seus filhotes já crescidos, prestando atenção como estátuas, assistindo meu pai ordenhar vaca após vaca.

De tempo em tempo, ele apontava o jato de leite para a face do primeiro gato da fila. Então, este ia para o fim da fila, sentava-se e esperava a sua próxima vez. A vaca ficava sem leite em aproximadamente cinco minutos. Então, papai movia-se até a próxima vaca e os gatos iam junto. Meu pai ordenhava vacas como uma máquina, sem nenhum protesto da vaca, e isto era uma arte meu amigo. Tenho que dizer que aprendi a ordenhar vacas quando era muito jovem, e até acredito que nasci já sabendo como fazer isso.

Vou voltar alguns anos e lhe contar como o primeiro Maine Coon e seus filhotes vieram para o nosso celeiro. A avó de meu pai contou a ele que a mãe dela se chamava Mary Haley, mas todos a conheciam como Molly, e seu pai se chamava Jonathan Tarbox. Os pais de Molly eram donos da fazenda adjacente, a fazenda Haley. A fazenda Tarbox e a fazenda Haley são hoje, lindos lares. Havia muitas histórias escritas sobre a fazenda Haley, contadas pelos índios.

Jonathan e Molly andavam pelos campos colhendo flores que nasciam em abundância. Eles sempre terminavam a caminhada atrás da casa de Jonathan. Procuravam pelo pai de Jonathan para perguntar se haviam novos filhotes no celeiro. Se houvesse, o pai dele levava os dois para onde estavam os filhotes e explicava: “Hoje temos filhotes recém-nascidos. Eles não abrirão os olhos por aproximadamente dez dias, e serão totalmente dependentes de sua mãe pelas próximas seis semanas. Não os perturbem, pois a mãe gata poderá escondê-los de nós”. Jonathan e Molly concordaram em guardar segredo.

Ao pé da fazenda Tarbox existe um canal conhecido como “The Pool”. Ele vai do Rio Saco até o Oceano Atlântico. Por seis horas do dia ele é uma vasta área de águas calmas, mas quando a maré está alta, o “The Pool” fica muito profundo. Foi lá que o Capitão Richard Vines e mais trinta e dois homens, no inverno de 1616 e 1617 construíram uma cabana de madeira no Ponto de Leighton, adjacente a fazenda Haley, para passar o severo inverno e sobreviver à ele. O navio onde seus suprimentos ficavam guardados ancorava no “The Pool”. Neste período, nossos aventureiros não tinham nenhum vizinho inglês por perto, além da cidade de Jamestown, na Virgínia. Isto aconteceu quatro anos antes da chegada do Mayflowers em Plymouth. Lá, hoje, existe a Estrada “The Pool” e um monumento erguido em memória a bravura deles. As vias Capitão Richard foram engajadas a transportarem os colonos até o litoral.

Seguindo a história do meu pai, de acordo com sua avó, um navio americano, o Glen Laurie, do qual o capitão era Enoch Snow, de Provincetown, navegava pelo litoral do Maine com sua carga, para negociar com os colonizadores. Neste navio estava um jovem navegador inglês que embarcou na Inglaterra. Seu nome era Tom Coon. Os marinheiros o chamavam de Menino Coon. Seu dever no navio era cuidar do gato do capitão.

Porém agora, Tom Coon tentaria encontrar uma solução para o que ele considerava um grande problema. Em um dos portos, onde o navio ancorou, era de Tom o trabalho de adicionar mais gatos ao navio.  Estes gatos viviam no cais. Deveriam ser gatos corajosos, que estivessem prontos para atacar ratos e ganhar a batalha. Enquanto Tom capturava gatos, os marinheiros visitavam as tavernas. Muitas vezes, Tom esperava por horas até que os marinheiros decidiam voltar ao navio. Tom checava todos os gatos cuidadosamente e observava-os caçando os ratos. Então ele tentava pegar os melhores gatos.

Tom Coon esperava e observava. Enquanto estava sentado num banco velho, sentiu um empurrão. Tom olhou em sua volta, e uma linda gata de pêlo longo, preta, laranja e branca, colocou a cabeça em sua mão, olhou para ele e miou. Tom pensou rápido: tenho que ficar com esta linda gata. Mas como? E então ele pensou: vou escondê-la em minha cabine.

Sua cabine era grande o bastante apenas para seu beliche com uma gaveta para guardar suas posses. Uma bíblia que sua mãe o tinha dado encontrava-se cuidadosamente embrulhada junto com sua roupa dominical. Ele também tinha uma caixa com um sapato que ficava ao pé de seu beliche. Tom Coon tinha apenas que esconder aquela linda gata dentro do navio e dentro de sua cabine. Isto seria um grande risco.

Então, a gata aconchegou-se em seus braços e ronronou. Tom pegou os maiores gatos, colocou-os cuidadosamente dentro de sacos e escondeu sua doce gata dentro de seu casaco. Era tarde quando os marinheiros voltaram, e estavam bêbados demais para notarem. Tom Coon levou a gata para sua cabine. Ele colocou parte de sua comida e algo mais que conseguiu achar dentro da cabine pra a gata. Ele nunca foi tão feliz desde que embarcou naquele navio.

Durante a noite ele pôde apreciar sua linda gata em seus braços e pensar enquanto ouvia seu constante e melodioso ronronar. Enquanto os dias passavam, ele guardou segredo, mas notou que sua gata estava fazendo um ninho dentro da caixa de seu sapato. Numa manhã, quando ele acordou, ela não estava em seu lugar de costume. Tom quase entrou em pânico com medo de ter perdido sua gata. Olhou para a caixa de seu sapato e lá estava ela com mais três gatinhos. Tom ficou louco de alegria, mas isto complicou a situação. Tinha que pensar em algo. Ele nunca teve uma responsabilidade dessas antes.

Um dos filhotes era o mais bonito: laranja forte, com o nariz rosado, de pescoço e peito brancos. Então Tom Coon notou que este filhote tinha dedos extras em todas as patas. Ele checou então o filhote silver e o de cor parecida com a da mãe, e todos eles tinham dedos extras. Ele não sabia se isto era bom ou ruim, mas Tom tinha outro problema naquele momento. Cuidar da gata e manter os filhotes vivos.

A gata ajudou em tudo que podia. Quando o navio balançava, ela se aproximava de seus bebês e os segurava. Ela estava muito orgulhosa, e colocava sua pata nas mãos de Tom para tentar tranqüilizá-lo e fazê-lo acreditar que tudo ficaria bem.

Tom Coon se preocupava em fazer seu serviço no navio corretamente, deixar o cozinheiro satisfeito e manter o gato do capitão bem cuidado. Finalmente decidiu ir diretamente ao capitão e pedir ajuda. Esta foi uma ótima decisão. Ele estava com medo do capitão ficar furioso e tomar decisões drásticas com relação aos gatinhos e a gata. Seu plano foi bem preparado. A cada noite que passava, ele ensaiava com sua gata o que iria dizer ao capitão. Com um pequeno filhote na mão e deslizando seus dedos sobre as costas da gata, ele contava a ela sobre seu plano. Ela abria e fechava os olhos parecendo aprovar. E com muitas idéias na cabeça, ele adormecia.

As semanas se passaram rapidamente e os filhotes agora rolavam e brincavam entre si, ainda na caixa de sapato. Eles estavam sempre atentos à chegada de Tom Coon. Ele pegava cada um dos gatinhos, pressionava-os em seu rosto carinhosamente e dizia “Você lindinho, gatinho lindo. Eu tenho que encontrar um lar pra você. O melhor lar do mundo, onde você terá muito carinho, leite de vaca, tudo que queira comer, e um lugar quentinho para viver, com alguém que irá te amar como eu te amo”. O filhote em suas mãos olhava diretamente pra seus olhos parecendo dizer, “Você vai, Tom Coon, você vai”, e Tom Coon dizia “Eu vou, eu vou”. Minha mãe costumava dizer “Onde existe esperança, existe um caminho”. Então Tom decidiu que amanhã seria o dia que ele iria contar seu problema para o Capitão Snow.

Quando ele acordou, estava ansioso e seu coração estava disparado. Ele fez uma oração pedindo a Deus que o ajudasse. Isto aconteceu num domingo, um dia especial dentro do navio Glen Laurie. Todo domingo o Capitão Snow contratava alguns serviços que os marinheiros poderiam usufruir. Tom Coon aguardou silenciosamente até que o Capitão tivesse terminado de ler a Bíblia e anunciado “Aqui começam os serviços!”, então repetiu a benção. Tom rezou pela ajuda de Deus e caminhou até o capitão. Com sua voz mais matura disse: “Capitão Snow?” O Capitão Snow respondeu, “Sim, Tom Coon?”. Então Tom disse: “Eu preciso de sua ajuda”. Capitão Snow disse: “Estou pronto para ajudá-lo. Qual é o seu problema?”. Então Tom contou toda sua história, como tinha guardado sua linda gata em sua cabine, e como ela teve seus filhotes na sua caixa de sapato.

Como Tom Coon disse, ele estava muito preocupado em dar a notícia ao capitão Enoch Snow, que era um homem gigante e o olhava para baixo ao falar com ele. Tinha quase dois metros de altura. Seu rosto parecia forrado de sal pela brisa do mar, e seus olhos castanhos eram como piscinas profundas, e pareciam penetrar na alma de qualquer homem. Quando Tom Coon terminou, Capitão Enoch Snow gentilmente apoiou sua enorme mão sobre o ombro de Tom e disse, “Tudo bem, Tom Coon. Veja só! Em poucas semanas estaremos navegando no Rio Winter Harbor, que fica em Biddeford Pool, no Maine”.

Maine é um novo estado. Era parte de Massachusetts, mas em 1820 o Maine se tornou um estado. Em 1639, todo o território conhecido como Maine hoje, foi entregue por alvará real ao senhor Ferdinand Gorges. No alvará estava escrito que esta terra deveria ser chamada para sempre de Província e País do Maine, e nunca por outro nome. Aquela foi a primeira vez que o nome Maine foi usado oficialmente.

Capitão Snow continuou, “Este rio faz fronteira com uma fazenda de propriedade de Joseph Tarbox, que é meu amigo. Ele possui um celeiro grande e quente onde guarda feno e abriga muitas vacas. Ele tem um filho, Jonathan, que tem aproximadamente a sua idade. Vamos parar por lá por uma semana ou duas. Então poderemos repor nossos estoques de suprimentos na loja Cutts em Biddeford Pool. Vou deixar você com a família Tarbox e te pegar quando voltar”. Tom Coon estava tão feliz que quase chorou de felicidade.

Ao chegar na fazenda Tarbox, o capitão ajudou Tom a transportar a mamãe gata e seus filhotes até o celeiro Tarbox.  A gata e seus filhotes pareciam agradecer pela liberdade que teriam dentro do enorme celeiro, para brincar e caçar. Tom Coon contou a Jonathan e Molly tudo sobre a gata e seus filhotes, em cada detalhe.

Bem, estes gatos eram chamados de Coon Cats e Coon Kittens por Tom Coon. O filhote laranja e o silver eram machos. Jonathan os chamou de Tom e Tommy. É por isso que hoje, os machos são chamados de Tom Cat.

Bem, meu pai contou ainda que Tom Coon deu sua linda gata e seus filhotes para Jonathan. E por muitos anos Tom Coon voltou para visitar a família Tarbox, e tornou-se capitão de muitos navios por muitos anos.

Durante suas visitas, Capitão Coon sempre trazia com ele um filhote de pêlo longo para dar de presente para Jonathan e Molly, que casaram-se e tiveram um filho, Joseph, que era o avô de papai. Bem, sabe o que papai disse? “Os Coon Cats Tom e Tommy visitaram as fazendas vizinhas e geraram mais filhotes de pêlo longo, e estes filhotes eram chamados de Coon Kittens.

Os três Coon Cats se tornaram tão desejados que muitos fazendeiros queriam negociar uma sacola de grãos ou vegetais em troca de um dos filhotes de Coon. Por isso, eles foram chamados de Gatos da Fortuna. Com o tempo, os Coons pareciam trazer sorte para a fazenda, então foram também chamados de Gatos da Sorte. E isto parece ser verdade até hoje.

Enquanto papai contava esta história, minha mente de criança imaginava a figura de Tom Coon dando sua linda gata de pêlo longo e seus filhotes para ele, e a gata e seus três filhotes já crescidos sentados, esperando por um jato de leite eram os Coon Cats dos quais ele me contava.

Agora, conto pra vocês esta história sobre os Maine Coons, que meu pai me contou seis anos atrás. E, enquanto contava-lhes esta história, aqui do meu lado, sentado e me observando, está meu Maine Coon. Um lindo macho de cor laranja, de nariz cor-de-rosa e peito branco, com grandes patas duplas. Ele deve ser descendente dos filhotes de Tom Coon, nascidos no Glen Laurie.

Pine Point, Maine, abril de 1979.

 

 

 

Tradução e Adaptação: Ângela e Renato Stoicov - Amacoon, 2007
Fonte: Furkats Maine Coons

Link: http://furkats.net